Camuflagem de Paraquedista

25 de outubro de 2012

camisa de botão camuflada

Eu tenho essa camisa que tem camuflagem de padronagem bem distinta, com um efeito de pincel. Sempre tive curiosidade de saber se havia alguma história por trás do desenho. Hoje me deparei com a resposta dentro do livro Vintage Menswear, no meio do capítulo sobre roupas militares:

jaqueta camuflada de paraquedista do exército britânico segunda guerra mundial
British Army Paratrooper's Denison Smock - 1940
O sucesso da estratégia Alemã na ocupação da França em 1940 levou Winston Churcill a ordernar a formação de um batalhão com 5,000 paraquedistas. Os designers dos trajes de guerra começaram imediatamente a bolar em um traje especial para a tarefa. Até então, o desenho era baseado no original na jaqueta Knockensack, ou "saco de osso" usada pelas tropas Alemãs - semelhantes a um macacão com calças na altura da coxa. Porém, os macacões costumavam ser removidos e abandonados na aterrisagem e por isso foram substituidos pela jaqueta Denison, em 1942. Mais confortável, mais funcional, fácil tirar por sobre a cabeça, folgada e feita de uma sarja pesada, tornando-a resistente ao vendo mas não quente demais. Os oficiais de alta patente, como o General Montgomery, costumavam ter suas Denison feitas sobe medida e de gabardine. 

jaqueta camuflada de paraquedista do exército britânico segunda guerra mundial
Detalhe do fecho de zipper, só até a medade da frente
A jaqueta era vestida por cima dos equipamentos militares e tinha quatro bolsos externos fechados por botões de pressão bem pesados (os bolsos de baixo eram tipicamente usados para guardar granadas que podiam ser arremessadas durante o salto), dois bolsos internos, um fecho de zipper até o peito, e um flap na virilha para deixar a jaqueta bem próxima do corpo e evitar que ela inflasse durante a queda.

jaqueta camuflada de paraquedista do exército britânico segunda guerra mundial
O punho foi customizado, incrementado com uma ribana de lã feita com uma meia militar. A prática era comum entre os soldados para deixar a jaqueta mais quente e mais a prova de vento.
A camuflagem era pintada a mão e impressa com tela utilizando uma estampa de pinceladas largas bem distintas, consideradas ideais para os terrenos da Itália e da Africa. A estampa era feita usando tinturas "non-colourfast", que se desgasta com o uso. A idéia era que com o tempo a jaqueta passaria a ter a aparência de um casaco de trabalho civil, ajudando o soldado a escapar da captura caso ficase preso atrás de linhas inimigas.  Uma versão mais ajustada ao corpo foi introduzida em 1959, mas variações da Denison foram fabricadas até meados dos anos 70.

jaqueta camuflada de paraquedista do exército indiano 1940
Indian Army Paratrooper's Smock - 1940
A jaqueta Denison foi copiada por exércitos do mundo, cada um fazendo suas pequenas alterações. A foto acima mostra a jaqueta de salto da divisão paraquedista do exército indiano. Ela tem botões de casa ao invés dos botões de pressão da jaqueta inglesa. Tem o fecho de zipper completo, punho de ribana feito de lã tricotada e dois bolsos internos. O exército indiano também fez algumas mudanças para adapta-la ao ambiente local - a versão da Denison deles não tem forro e a camuflagem de pincel é mais exagerada, com uma folhagem com efeito marrom avermelhado.

jaqueta camuflada de paraquedista do exército indiano 1940
Detalhe do fecho que passava por entre as pernas e se prendia na virilha, para selar a jaqueta durante o salto de paraquedas
Fotos retiradas do livro Vintage Menswear - A collection from the Vintage Showroom, por Sims, Luckett & Gunn

Traje formal azul escuro

24 de outubro de 2012


Fonte: The Metropolitan Museum of Art

Na década de 1920 o Duque de Windsor, na época ainda o Príncipe de Gales, introduziu o terno azul meia noite como uma alternativa para o preto convencional dos trajes formais noturnos. Ele foi motivado não somente pelo desejo de amenizar a formalidade dos trajes masculinos, mas também por aumentar a sua fama indumentária na imprensa popular. Ele explicou em um álbum de família que "era de fato 'produzido' como um líder de moda, com os alfaiates eram os meus showmen e o mundo o meu público. O intermediário neste processo foi o fotógrafo, empregados não só pela imprensa, mas pelo comércio, cuja missão era fotografar-me em todas as ocasiões possíveis, publicas ou privadas, com um olho especial para o que eu estava vestindo." O Príncipe de Gales compreendeu as possibilidades fotogênicas que um terno azul escuro tinha nas fotografias preto e branco. Ao contrário do traje preto, ele permitia o reconhecimento de detalhes sutis da alfaiataria, tais como botões, lapelas e bolsos.

Blazer de Linho

detalhe do ombro desestruturado de um blazer de linho
Ombros macios, naturais sem enchimento - A cor da foto ficou muito cinza
Essa semana está fazendo calor em Belo Horizonte. Apenas uma prévia do que está por vir. A coleção SS 13 Gant Rugger é legal, mas a última coisa que quero fazer em um bafão desses é pensar  em roupas, quanto mais colocar uma jaqueta. É por isso que, se eu tiver que usar um blazer, eu prefiro que ele seja de linho. 

O linho é um dos tecidos mais antigos do mundo. No livro de Moisés a perda de uma colheita é uma praga. Todos os figurões do Antigo Testamento se vestiam com túnicas de "linho fino retorcido". Na terra de nossos colonizadores, arqueologistas encontraram farrapos de linho de 2500 A.C. O tecido feito das fibras da planta do linho tem seu valor na capacidade de manter as pessoas confortáveis e frescas em temperaturas elevadas. Hoje, o linho é produzido em vários países, mas de acordo com este vídeo, o melhor linho ainda é cultivado e feito na Europa.


A trama do linho é frouxa. O tecido fica mais suave a cada lavagem, só que ele não é muito elástico, o que significa rugas. Eu gosto delas, como o tecido é para épocas quentes, elas ajudam a dar uma aparência indiferente, conferindo um ar descontraído e relaxado, próprio para uma época do ano em que é difícil não querer sair por aí de bermuda e chinelo. 


Eu peguei uma mega promoção e comprei esse blazer de linho na Uniqlo por um preço inacreditável. O corte é macio, de ombros naturais, bolsos sem aba e proporções bem moderadas. Ombros sem enchimento em blazers casuais eliminam a rigidez, mas o essencial mesmo em um blazer deste tipo é a ausência de revestimento. Vejo muitas lojas que vendem modelos com forro completo e acho uma bobagem. A camada de poliéster vai fechar toda a ventilação. Quanto menos coisa atrapalhando, melhor. 

blazer de linho sem forro
Na verdade este tem forro nas costas, para ajudar na hora de vestir.
Para quem não tem uma opção destas para o verão, o ideal seria começar com um azul  escuro. O linho e a desestruturação deixam o blazer descontraído o suficiente para usar até mesmo com uma camiseta, e o azul o tornaria alinhado o suficiente para escapulir a noite em ambientes mais formais. Tentei fazer algo diferente dessa vez e colocar algumas opções nacionais. Porém, não recomendaria a maioria que achei. Literalmente uma porcaria:

- A Colcci tem essa opção bem cagada. A parte externa é de linho e viscose, o que para mim já estraga ele. Ele é forrado com poliéster, ou seja, você provavelmente vai assar lá dentro. Os bolsos não me agradaram, são os tipos mais formais que um paletó pode ter, formais demais para um blazer casual com corte perigosamente curto. Blazer Colcci


- A VR tem uma opção de blazer desestruturado feita de algodão. Porém, novamente ele é forrado de poliéster. Essa resistência que as marcas tem de fazer blazers sem forro provavelmente é para esconder o péssimo acabamento interno. Blazer VR.


- Outra opção da Colcci, o mesmo modelo só que azul. Novamente os mesmos problemas, e para completar reparei que eles colocaram alguma espécie de coisinha de metal do lado do bolso. Provavelmente o logo da marca. Totalmente deselegante. Blazer Colcci Azul

- Essa opção da Richards é mais interessante. O blazer é de linho, com apenas o meio forro. Os botões também são bem bonitos e ele tem abertura dupla na parte de trás, o que ajuda na mobilidade e possibilida um corte mais justo. Porém o corte da Richards costuma ser bem espaçoso. Se tiver que escolher, iria com o Blazer Richards e o levaria a um alfaiate para alguns ajustes.


Gant Rugger SS13 e Holiday 2012

Primeiro vamos tirar do caminho essas fotos da coleção capsula da Gant Rugger para os Holidays 2012. Vamos falar do terno verde com aquela gravata azul, da calça xadrez black watch e blazer de gola shawl complementar, e da jaqueta de couro marrom com o pelo na gola.





Ok, agora vamos a segunda parte. A Gant Rugger soltou uma prévia da sua coleção de Primavera/Verão 2013. Eu já falei sobre a Rugger antes e no momento ela está com 100% de aproveitamento. Parabéns ao Sr. Bastin. 

O que eu estou gostando mais é a consistência. Os blazers, por exemplo, são todos feitos com o mesmo molde. As camisas tem basicamente dois tipos de "fit', o tradicional e o rugger (que é perfeito para mim). Os tecidos e detalhes mudam, mas os básicos estão sempre disponíveis. As peças me vestiram bem uma vez, então a linha virou opção certa se houver necessidade de repor alguma coisa ou expandir o guarda roup; e me sinto muito seguro se precisar comprar online.

Primavera/Verão 2013: A coleção marca a primeira vez que a Gant Rugger irá participar do Pitti Uomo, na Itália. De nome "Team Americano", ela foi inspirada nos editores e compradores americanos que participam do evento em Florença. As produções são Italianas com um toque americano. Os tecidos de verão (linho, jersey e o hopsack) são em tons tradicionais para esta época, complementados com as cores primárias da bandeira dos Estados Unidos, tudo pastel, bem queimado de Sol. 




Ainda bem que peguei a coleção de Outono/Inverno nas lojas. Apesar de excelente, é feita de tecidos pesados demais. Se a coleção de verão estivesse disponível quando viajei eu com certeza teria pelo menos experimentado a polo rugby, o blazer xadrez de abotoamento duplo (o terno completo), a camisa madras desbotada e a camisa de gola club. O roupão também é bem divertido, assim com o blazer xadrez escuro e algo que parece uma espécie de blazer/cardigan de jersey. No mais, continuo não conseguindo absorver a idéia de short com paletós, e aquelas bermudas de praia estão muito curtas para mim. A mala estilo "duffle" é bem legal, mas aquele sacolão tote eu prefiro deixar a namorada carregar. Preconceito, eu sei.

D.S Dundee

23 de outubro de 2012

bota masculina marrom com fivelas

O tumblr é ótimo mas as vezes é frustrante não saber de onde vem uma foto. Outro dia descobri, bem atrasado, a origem de uma bota que a muito tempo circula no meu dashboard. A bota é da D.S. Dundee. A marca britânica tem um pézinho nos tecidos Escoceses e na vida no campo de épocas passadas. Ela é a manifestação moderna da Tweed Run Moscow, interpretando o estilo campestre do velho mundo. Sei que é difícil falar de roupas assim, sem tocar e realmente sentir o peso do tecido e colocar a mão nos detalhes, mas acho que vale a pena visitar o site e dar uma olhada no histórico das coleções.

Paul Stuart: Mad for Plaid

22 de outubro de 2012

Foto por Alice Olive para o The Trad
Na semana passada a Paul Stuart recebeu convidados ilustres em sua loja na Madison Avenue, NY, para comemorar uma série de vídeos com seis figuras influentes da moda masculina, escolhidos para montar produçōes utilizando o xadrez (plaid) que estão expostas nas vitrines da loja. Os seis escolhidos para o Mad for Plaid foram o editor da Esquire, Nick Sullivan; Lawrence Schlossman do Four Pins (e HTTTGAP); o fotógrafo Mordechai Rubinsteim, do site de street style Mr. Mort; John Tinseth do The Trad, Stephen Pulvirent do Hodinkee e, para completar, Tasha Green do site Departures.

O evento era aberto ao público, bastava mandar um e-mail ou mensagem para o responsável dentro da Paul Stuart.  Infelizmente eu só fiquei sabendo disso depois. Mesmo tendo deixado passar, consegui tirar foto das vitrines e visitar a loja em um outro dia. Como as fotos da internet ficaram muito melhores que as minhas, decidi deixar elas quietas no meu instagram e pegar algumas emprestados do site Fine Young Gentleman. Me espanta como as pessoas tiram fotos das vitrines sem um reflexo gigantesco estragando.










O xadrez da um algo a mais para as cores geralmente suaves e terrosas do Outono do hemisfério norte. O melhor é quando ele é misturado ao tecido tweed, formando uma combinação perfeita de padrão e de textura. O xadrez e o tweed são geralmente considerados tecidos dos nossos avós, mas as vitrines da Paul Stuart servem de excelente referência do potencial que eles tem nos dias de hoje. 



Se dinheiro não fosse problema eu teria levado quase tudo da loja. Mas como ele não nasce em árvore eu fiquei satisfeito com apenas passear. A seleção de produtos e decoração é toda bastante luxuosa, com carpetes, tapeçaria e aqueles móveis que devem custar mais do que o meu peso em ouro. O destaque foi o canto para roupas sob medidas. Não é aquele sob medida fajuto, é o verdadeiro "bespoke". O cliente recebe o seu próprio molde a partir de um monte de medidas, pode escolher os tecidos (quase todos Ingleses), e incorporar todos os detalhes que quiser. Depois de voltar várias vezes para experimentar e ajustar o produto inacabado, ele recebe uma peça de alfaiataria Paul Stuart totalmente customizada. É a primeira vez que eu visito uma loja com um serviço deste tipo, tendo este padrão de qualidade. 






Voltando um pouco: A Paul Stuart é uma loja masculina de luxo fundada em 1938. Só existem três lojas, e junto com a online, são os únicos lugares onde é possível comprar os produtos da marca. Exclusivo e cuidadosamente fabricado. É uma das poucas lojas da velha guarda que sobreviveram até hoje, graças a sua capacidade de reconhecer e incorporar os pontos fortes das tradições e das mudanças da moda masculina, mas sem se render a modismos e extremos. Em 2007 introduziu a linha Phieas Cole para atrair o público mais jovem; e o relacionamento com a internet através de iniciativas como o Mad for Plaid e a loja online, que ajudam a Paul Stuart a navegar a linha tênue entre a elegância e a rigídez, entre ser legal e moderna demais. Mais alguns detalhes, nas fotos de Alice Olive para o The Trad

Os Festivais de Ontem

Bob Dylan, Donovan e Mary Travers 1965
Bob Dylan, Donovan e Mary Travers (visual bem contemporâneo, só que em 1965)
Estou vendo o desenrolar do movi antecipando os festivais de música que estão chegando. Resolvi aproveitar um post antigo que fiz no Vovó era New Rave. Reciclagem. O Brasil, que sempre contou com uma penca de festivais de axé e sertanejo, está definitivamente consolidado na rota dos grandes eventos internacionais. Resolvi aproveitar um post antigo que fiz no Vovó era New Rave. Reciclagem.

Na época de festival que aparecem na internet uma enxurrada de imagens mostrando as roupas que as pessoas foram e dicas de "visual para ir a um show de rock". A verdade é que ninguém vai ligar para o que você está vestindo: todos os olhos (e ouvidos) vão estar voltados para o palco. O que importa é o conforto físico e mental. A pior coisa que tem é ficar de pé com uma roupa desconfortável no meio do empurra-empurra. 

Ai vão algumas fotos dos festivais do passado. Uma época em que todo mundo aparentava não estar nem aí para o que iam vestir nos shows. Usavam as roupas do dia a dia, cada um com a freak flag de sua tribo. Ninguém aparecia fantasiado de rocker só porque estava indo a um show. Imagens cortesia do NY Times:


hippies bolhas de sabao no parque
hyde park 1969
Hyde Park, 1969
Ray Dorset, do Mungo Jerry - 1970
Ray Dorset, do Mungo Jerry - 1970
Brian Jones (Rolling Stones) - Monterey, 1967
Brian Jones (Rolling Stones) - Monterey, 1967
vivendo no carro
joan baez 1968
Joan Baez, 1968
cobertores em festival de rock
estilo Teddy Boys - Wembley,1972
Teddy Boys - Wembley,1972

jane fonda 1969
Jane Fonda, 1969

Marcello Mastroianni

19 de outubro de 2012


marcelo mastroianni poster la dolce vita

Estou assistindo muitos filmes antigos últimamente. Muita gente não gosta de filme velho, quanto mais de preto e branco. Enfim, querendo ou não, o maior volume de filmes clássicos vem da maior indústria cinematográfica de todas, Hollywood, e por isso a estética predominante acaba sendo a Americana/Inglesa. 

Os britânicos foram por muito tempo o centro da moda masculina, ditada pelos alfaiates da Savile Row. Nos filmes de 1930, por exemplo, o terno de atores como Gary Cooper, Jimmy Stewart e Douglas Fairbanks tinham o corte conhecido como "drape suit", com peitoral cheio, ombros largos e quadril ajustado, formando uma silhueta em V. Outros comum nos filmes antigos são os "sack suits" americanos, sem pregas nas laterais, de ombros macios e corte mais largo, usado por exemplo por Gregory Peck em Roman Holiday (A Princesa e o Plebeu). 

Mas existe um outro país Europeu com fortíssima tradição na alfaiataria; e falando de forma genérica, homens com um estilo bem distinto do britânico e do americano: A Itália. A alfaiataria Italiana costumava ser mais macia, com o ombro menos estruturados e paletó mais ajustado aos contornos do corpo. A calça também seguia uma linha mais ajustada do que a britânica, era a versão slim fit da época. Na década 1950 a Italia estava finalmente voltando a prosperar depois do fim da ditadura. Pode-se dizer que foi Marcello Mastroianni, através do cinema, o grande responsável por introduzir alfaiataria e o estilo dos italianos para o resto do mundo.

marcello mastroianni terno preto e óculos escuros
Reservoir Dogs (Cães de Aluguel)? Mastroianni em 1959.
Jaquetão com ombros macios e sem enchimento.
marcello mastroianni terno claro com camisa escura
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